O nosso amor é o teu sorriso, nesse improviso Essa verdade que é tão estranha Essa ligação que é mais que o corpo Essa empatia que é mais que a alma É morto, é vivo, existente, permanente É cúmplice nos trejeitos, nos olhares É rio e afluentes, nossas lágrimas
E é teu nessa metade, meu nesta metade E nosso naquele abraço
Devia ter deixado de fumar. Os dias têm passado lentos, sempre mais pequenos do que as noites. O movimento tem-se repetido,e, um após outro, têm-se desfeito, consumido. O peso nos olhos é sempre contraposto com o facto naturalmente milagroso de estes continuarem a enxergar, sendo pois isto a mais derradeira prova de vida. As sombras, constante e ultima companhia, erguem-se em noite de insónia ao sabor do isqueiro. A mente está toldada, incapaz de discernir a realidade da realidade própria, e enquanto isso, no panorama social, as horas passam, minuto a minuto, na rotação esquizofrenia de biliões de relógios. Escorre-se a ampulheta para mais uma batalha perdida. Desistir não faz parte do encanto, porque isso significaria adormecer. Por fim os pés sossegam no vazio do divino, enquanto que, o tempo acelera mais do que o próprio corpo inerte. É manhã, e cansado é hora de andar. O cérebro desperta para mais um queima-queima no campo de batalha civilizacional. Passo a passo, a escada andando sobre os pés rotineiros. Enquanto a luz invade a casa escura que por tanto tempo se abriu à escuridão. Procura-se sob o tampo do tacho o resto do café de ontem à noite. Acção escorrega pela garganta desnuda e virgem. Do bolso do roupão velho saca-se um cigarro. Depois a água e o alivio do corpo quente e confuso. Mais uma vez se olham as horas, e se morre no sofá com todos os sentidos despertos.
Não estou com grande disposição P'ra outra enorme discussão Tu dizes que agora é de vez Fico a pensar nos porquês Nós ambos temos opiniões Fraquezas nos corações As lágrimas cheias de sal Não lavam o nosso mal
E eu só quero ver-te rir feliz Dar cambalhotas no lençol Mas torces o nariz e lá se vai o sol
Dizes vermelho, respondo azul Se vou para norte, vais para sul Mas tenho de te convencer Que, às vezes, também posso...
Ter razão! Também mereço ter razão Vai por mim Sou capaz de te mostrar a luz E depois regressamos os dois À escuridão
Se eu telefono, estás a falar Ou pensas que é p'ra resmungar Mas quando queres saber de mim Transformas-te em querubim Quero ir para a cama e tu queres sair Se quero beijos, queres dormir Se te apetece conversar Estou numa de meditar
E tu só queres ver-me rir feliz Dar cambalhotas no lençol Mas torço o meu nariz e lá se vai o sol
Dizes que sou chato e rezingão Se digo sim, tu dizes não Como é que te vou convencer Que, às vezes, também podes...
Ter razão! Também mereces ter razão Vai por mim És capaz de me mostrar a luz E depois regressamos os dois À escuridão
Atenção! Os dois podemos ter razão Vai por mim Há momentos em que se faz luz E depois regressamos os dois À escuridão
Um simples dia e falta-me a voz Pela noite dentro já fomos tão sós Um após outro ao cais se encostaram Por serem da noite por ali ficaram
Foram aos olhos que as mãos nos levaram Em dor e em pranto estenderam seu manto E tanto escorreu que até o rio secou Ele chora baixinho foi quanto bastou
Meu amor, sorriso primor Vontade prosaica mas com seu esplendor Corre-nos no peito o odor da saudade Sustenta teu corpo, calor, liberdade
Seguindo no tempo a idade chegou E em palavras parcas o sangue voltou Enchendo de vida o peito e a cidade Pois o meu amor dura mais que idade
Meu amor, sorriso primor Vontade prosaica mas com seu esplendor Corre-nos no peito o odor da saudade Sustenta teu corpo, calor, liberdade
Escrever não mata mas fere. É ser utilizador, consumidor e cliente. É ser prosa e ser verso, ser rima sendo gente. Alimenta-nos o espírito e os fantasmas também. É um escárnio constante, e uma sedução de volátil termo. É permanente, tatuado. É para sempre tão ousado.
É uma viagem fulcral. Uma víscera mental. E é sempre estranho o momento em que sem se falar, sem se dizer, se constroem sólidos sentidos.
O render das defesas articuladas em esquemáticas manhas, o cumprir das vontades das historias das façanhas. O mentir com clareza, astucia e satisfação. O pecado mortal na dança anárquica de uma mão.
4 lados conversando - esquerdo, direito, coração e alma. Todos juntos se anulando numa produção cimeira.
É coisa prós loucos reprimidos, para os que pensam fazendo o pino. É coisa de bradar em corrupio. E é o limiar da vida... ponto alto onde se sublimam as questões humanas, e depois aquilo que as transcende, e logo aí, passando a acarretar consigo a morte.
Fim de tarde de Outono As folhas cobertas de sangue deslizam mortas Vultos sonoros bafejam de fumo os limites do céu O globo gira em ângulo mais frio
A rapariga linda dorme sobre a cama Enquanto o sol, esgueirando-se pelas frinchas lhe tenta aquecer o corpo Já passaram tantos anos, e tudo continua quase sempre igual
A rama, aquilo que está mais exposto, raramente muda O dia-a-dia desta pequena vem sendo sempre o mesmo Tal como o meu, tal como o teu e como o seu
São rotas previamente traçadas que inspiram as horas Os dias estão escritos algures no chão, numa folha de papel amarela Os olhos esses parecem sempre novos, vivos, reveladores do estranho mundo para lá do corpo.
Fim de tarde de Outono Dormimos juntos de novo Até ser Primavera amanhã
Já te foste e levaste esse laço contigo. Usurpaste-o de mão cerrada, enquanto no meu peito ainda uma luz vã cintilava. Vi-te sair, e não liguei... Vi-te largar, nem me avisei... E é estranho, inquietante até, saber que saíste para o escuro. Fechaste-me a asa pela ultima vez perdendo-te para lá das tuas fronteiras geográficas. Ao longo da janela correste, até onde a vista alcança. Morri sentado nesse repasto feito sofá a ver-te seguir... Morri e voltei a morrer até ser carne. Ontem pela primeira vez voltei a abrir os olhos, e hoje pela ultima bombeei pelo meu corpo o fino fluido sanguíneo que lhe conferiu um verdadeiro espasmo para se erguer. Da janela, dessa, só resta o tempo nu e as árvores podres que se curvaram respeitosamente à tua passagem.
Ainda não era manhã, e ele já limpava a madrugada dos sapatos. A noite tinha sido inquieta, devoradora. O dia é mau concelheiro quanto aos pecados da noite. Grita agitado, sem dó, com Luz! Grita agitado, com pó, em cruz! Ainda não era manhã, e já vinha impresso nos jornais: Homem de negro encontrado morto no Rio! No que restava da noite ele apenas se deitou sobre a cama Depois de ter queimado a roupa que trazia. Nu ficou, ansiando o feroz futuro, esperando a luz pálida esgueirar-se por entre as frinchas, Da sua casa, do seu Corpo.
A vida é uma chama, Fogo escasso que a inflama. A vida é um acaso, Delimitado por dois actos. É uma esperança efémera Um desenho, uma quimera. É um saber que tudo desconhece É um pensar que apenas adivinha É um pedaço de coisa nenhuma, sem verdade nem razão É mera maldade, pura chacina, antro escasso em devoção.
E eu, sou só mais um peão, dentro desta precoce inquietação Um par de olhos que não enxerga além da sua fronte Sou as cinzas, o céu, e as estrelas E, sendo tanto, não sou nada.
Há uma rosa feita ferida no meu peito Uma fraqueza sufocante que me rouba a firmeza dos punhos Há um desprezo manhoso nos meus actos E nem fumar sei, quando isso poderia ser a única salvação.
O punhal incomodo, e as costas contra a parede As perseguições da mente... e as saudades de ser puto Livre de honras e de ciumes, salvo de dádivas e de queixumes
A mente teima em apertar com a alma, Enquanto o corpo paga as diligencias da batalha Sob o olhar astuto e perverso dos camuflados estáticos
A Lua sorri, como ultima resposta aos meus pedidos, Toca o Country caseiro na minha cabeça... E esgueira-se um sorriso de guitarra ás costas Esperando continuar este poema.
Bateu à porta por uma ultima vez. Os dedos marcados, e o noc não cíclico não enganavam quanto ao carácter do sujeito. Lá fora estava frio. Abri-lhe a porta... Ela entrou lenta, foi-se chegando, sentou-se sobre o tapete junto da lareira. As pernas juntas, e o olhar sempre fixo no mesmo sentido. Dei dois passos na sua direcção, sentei-me também. O meu braço sobre o seu ombro mais distante, e a sua cabeça escorregando pelo meu corpo. Os olhos postos na chama calmamente embalados pela dança volátil do fogo... Acordei só, talvez no verão, soprava um vento ameno e ao longe podia ouvir-se o cantar dos pássaros. Ergui-me com cuidado. Respirei fundo passando as mãos na cara. Havia em mim um odor diferente e nas mãos uma presença doce, especial... Do sonho eterno ficaram sob a cinza, as brasas que na lareira ardiam com o resto das lembranças que o tempo arguto teimou em apagar.
Well, when youre sitting there In your silk upholstered chair Talking to some rich folks that you know Well I hope you wont see me In my ragged company You know I could never be alone
Take me down little susie, take me down I know you think youre the queen of the underground And you can send me dead flowers every morning Send me dead flowers by the mail Send me dead flowers to my wedding And I wont forget to put roses on your grave
Well, when youre sitting back In your rose pink cadillac Making bets on kentucky derby day Ill be in my basement room With a needle and a spoon And another girl to take my pain away
Take me down little susie, take me down I know you think youre the queen of the underground And you can send me dead flowers every morning Send me dead flowers by the mail Send me dead flowers to my wedding And I wont forget to put roses on your grave
Take me down little susie, take me down I know you think youre the queen of the underground And you can send me dead flowers every morning Send me dead flowers by the us mail Say it with dead flowers at my wedding And I wont forget to put roses on your grave No I wont forget to put roses on your grave
Rolling Stones
__________##Tradução##________________________
Bem, Quando tu estás sentada aí Na tua cadeira estofada Conversando com algum Sujeito rico que conheces
Bem, espero que não me vejas Com a minha companhia esfarrapada Bem, tu sabes que Eu nunca conseguiria ficar só
Põe-me para baixo pequena Susie Põe-me para baixo Eu sei que tu pensas Que és a rainha do submundo
E tu podes mandar-me flores mortas todas as manhãs Mandar-me flores mortas pelo correio Mandar-me flores mortas Para o meu casamento E eu não vou esquecer de colocar rosas Sobre o teu túmulo
Bem, quando estás a repousar No teu Cadillac cor-de-rosa A fazer apostas No dia do derbie de Kentucky Ah, eu estarei na cave Com uma agulha e uma colher E com outra menina para aliviar minha dor
Põe-me para baixo pequena Susie Põe-me para baixo Eu sei que tu pensas Que és a rainha do submundo
E tu podes mandar-me flores mortas todas as manhãs Mandar-me flores mortas pelo correio Mandar-me flores mortas Para o meu casamento E eu não vou esquecer de colocar rosas Sobre o teu túmulo
No meu bairro não há centro As ruas não são de pedra E não há cafés nem pontos de conforto As paredes são frias e os rostos todos iguais Ninguém nos visita, e nós próprios só nos visitamos quando vamos dormir.
No meu bairro não há música nem historia As convenções vigentes são as da rotina O ar é quente, e escasseia a novidade
No meu bairro, não há crianças Se as houver estão mortas ou escondidas
No meu bairro não há afectos nem raparigas bonitas Não há jardins, nem cantos recônditos à beira de um lago E por isso mesmo nunca se vê ninguém de mão dada
Conta-se que no meu bairro, a seiva da vida deixou de brotar E que aqui morreu amor, algures no outono, Na queda da ultima folha, no corte da ultima árvore... No meu bairro faz falta, o Bairro do Amor.
Há um sufoco entre nós Há amarras a prender-nos a um cais deserto...
Mas há também a corrente, e a força da maré Que conduzem sem sentido próprio o seu destino E no encontro, na vez da continuidade, há a desculpa que se liberta E as palavras que amarradas a um vazio, voltam puxadas à sua proveniência Deixam sós os olhares, que, por segundos eternos se penetram na mais brilhante comoção.
Deitei a mala velha fora Rasguei a camisa suada, e com ela envolvi a cabeça Esventrei uma ideia quente e esmaguei o alcatrão
Os frisados cabelos brancos sobre as costas E a barba escorrida como máscara ; O calor tomando forma, em tornados espectrais E a mente destilando o seu cerne
As encostas cercando o Homem E ele a dar-se à terra Corpo com pó, suor com chuva Pés com chão, alma com prâna
Atrás dele, como sombra, a morte, com seu bordão À espreita, definitivamente pronta para ceifar A sua derradeira jornada.
Isto é coisa que passa, que vem, e que fica Isto é coisa que vai e coisa que vem É fruto proibido que a mente evita É veneno letal que o corpo pede Não devia ser e é, e volta a ser Devia ser e não é, não vai calhar É coisa de dar em doido, coisa da noite É amor de acendalha, num lugar à parte É dança é calor e que mais E é "exacto" quando tudo o resto não o é Agora engole em seco, e como sempre Guarda pra ti!
Fim de tarde no cerrado. As meninas correm afoitas, terra acima. E os homens colhem os frutos tardios, confinando a sua íris à intrigante dança das saias luxuriantes. O pó, atrevido, entrelaçando cada recanto mais maroto sem nem se expressar, aguardando apenas pela água que o leve de volta até ser chuva. A doce Wendsenady, vestida na sua pele rosada, alojando tão brilhantes pérolas a par, belas safiras azuis, seus olhos, seu trespassar de alma... Que mais se pode querer, que mais se pode almejar... nada mais... nada mais, do que ter o dom, esse dom, de saber seus segredos através dos seus olhos...
Jantar, e as entranhas da carne saúdam os afiados dentes que sem pudor jazem, dilacerando as suas profundezas. O vinho quente, descendo, queimando a guelra, roubando o frio. A doce chama ardente, hipnotizante inferno que se faz ouvir nas entranhas da mente... esse fino estalar da madeira, na noite, o ressequir da vida em terno calor. E a envolvência exterior, esse abrigado tecto que nos separa da morte, esse estrelato de enfeitar que nos mente nos livros e nas prosas. De volta para dentro, e tão delicados são os frutos mortos empilhados na velha fruteira, tão farta de fruta, sentindo-se apertada no seu recorte procelanico delicado, guinchando até se estilhaçar em menos de nada. Esperando de novo ser consumida, forjada, fundida com a terra, até reaver sua forma. É este o ciclo lunar, e são estes os estados, que permitem a alguns ser passeados, folheados; as portas, que se permitem abrir, descobrir. À nossa custa, às nossas pagas... Quem não supera fica, quem ultrapassa cresce.
Não tenho passado, nem memória Foi tudo apagado, processado depois de rasgado Abro os olhos, não há legado A quem se reclama por não o ter deixado?
E lá no fundo afinal nem sei de nada Quando o meu pensamento mora a milhas do meu corpo E a minha voz em ecoa em distantes memórias
São delicados os meandros dos laços Como o enturgecer dos seios de um ser feito fêmea Quando por fim tocam o corpo em molde de centauro
A flora da vida à mercê de um punhal E o ser ébrio em eufémica cremação
Uma efeméride celestial Num abrir de asas petulante Num rompante quebrador de condor
Em que um anjo arrasta sua sombra branca Pelo quadro da noite Que o escolta Em branda e doce, calmaria.
As caras triunfantes dos reis e rainhas Espalhadas na mesa preta dos cigarros e da bebida As espadas saltitantes de uma vontade incerta As mãos carentes, rascunhadas Num pedaço de papel em vai-vem Tempestade revoltada de sol a sol
O mar a sul e já estou a perder o espírito A vontade pequena dos olhos semi-abertos As cores das mulheres, e os paladares das taças vazias
O fumo iluminado e denso do acalmar de uma tormenta Um iluminismo pensado a cada grande suspiro Delineando esguias caravelas de cinza
É esse o delicado tranze saboroso O charme pesado da ponta de uma bota de couro castanho O ranger da noite, passo a passo Na ponta dos pés O poder de um corpo A sedução de um copo
Portas, escolhas, nuvens, consumição Pé no fundo, aproximando o fim do túnel Antecipando a luz Regressando ao esconderijo, findo o abismo Ansiando a penumbra
Os corpos falam na imensidão de um beijo Os sentidos rosnam, as paredes debruçam-se Os braços acolhem a solidão Num fiel espasmo universal A razão distinta das mãos escorrendo Descendo o leito, caminho perfeito O coração aperta estreito A espiral da vida num desmaio difuso Uma cegueira desmedida As palavras ecoadas em sombras incandescentes Cúmplices sigilos, abafados mordidos A conjectura das sensações na ponta dos dedos Os estados subindo e descendo O corpo morrendo com sua alma Os olhos fixos num ponto nu De volta, por fim, a calma.
Não é preciso o mundo lá fora A batalha é travada cá dentro, sempre Nas cores, nas formas, nas ânsias e nos desejos Manda o nosso fundo, a nossa índole, a nossa nobre alma
É destes pequenos feitos interiores que trata a vida É esse o seu sustento Cegos são aqueles que lhe inventam outro sentido principal
Hoje vejo claramente, embora de forma efémera A larga diferença que separa o ver do olhar A vasta fronteira, que distingue realidades
Olhar, saber olhar Através do ser Transformar o vento, os sons, os aromas num palato universal
Quando cada um encontrar o seu nobre sentido próprio Encontrará de facto o sentido da sua existência Basta olhar...
Passam os dias, passam as horas E os olhos presos num ponto balançam Aguçam a esperteza clara de quem há muito não vê o sol Gigantes pérolas cintilantes, luzidias esperanças
Na vidraça a cara louca de uma mulher perdida O soalho pendendo para debaixo dos armários As portas rangendo às vontades do vento As cortinas acenando em mostras de sua fúria
Passam os dias, passam as horas O corpo prostrado na velha cadeira de pau preto As formas pesadas fazendo parte da mobília
Os retratos familiares em fino fio dependurados Pendendo seus rostos ao centro da mesa Um rodopio que arrepio trazendo o frio de volta ao corpo
Passam os dias, passam as horas Noite dentro, dia fora O corpo sentado, inerte Por fim - morto.
Os passos sós pelos lances de escada soada, estalavam a memória dos passos rotineiros que por vontade ou por escantilhão eram dados. Os barcos largavam o cais para uma ultima demanda, e o nevoeiro regressava abraçando a cidade de lés a lés. Os casacos compridos e pesados eram o mote meteorológico essencial para um qualquer transeunte estabelecer na sua cabeça que as noites por aqueles lados eram frias. Os sinos tocavam uma ultima vez, os bares cerravam as portas, as esposas inquietas a janela, deixando uma frincha, para ver da chegada do marido bêbado; chegavam as difusas luzes de rua que se acendiam para sempre, e os relâmpagos a par dos sons de batalhas longínquas. Ele como sempre, travava o ultimo golo da sua garrafa companheira amêndoa amarga, penteava os cabelos grisalhos no velho espelho, fitava-o em pose tossindo por dentro num entoar nobre, sorria e seguia esguio, escovando os ombros do velho casaco da marinha mercante. Abria a porta de velha madeira vermelha comida pelo tempo, fazia o soalho ranger lentamente e seguia em passo distinto. A rua deserta, as pombas deitadas nos umbrais, as gotas pingando de par em par nas goteiras. A fina luz da lua saudando o seu encovado mas de fino traço olho azul, mala às costas, um passo, rua abaixo, para ele havia começado o turno da noite.
e quando é preciso verbalizar os pensamentos para confirmar a sua ingrata realidade é estar mais além, para lá do traço nítido, para lá de onde o sol nascera
Vou-me embora vou partir, à terra vou voltar e dela tentar ser Para nela ser também... Com seus olhos rugir, e em seu cerne ferver. Crescer, voltar a ser.
As complicações humanas... Sempre tão complicadas Os laços, e desenlaces, deslaçados As mãos de poros dados à espera de descer a rua Os beijos que sabem a nada O tudo que apela ao resto Os desencontros tardios na velha estação Tantos que partem, tantos que vão
Os sentidos, os sentidos As mágoas que partidas ressaltam em mil estilhaços. Tal espelho partido em cascata Tal dor, tão fina que rasga a razão
As vozes soltas, Como cavalos brancos Traçando um rasto de água na planície
E as batalhas carecem dessa falta Desse desalento moderno, Desse abismo que se perde no horizonte
Resta-nos a nós, fechar os olhos Estancar a roda dos pensamentos Sentir o calor da vela
Por mais que eu te tenha dito que não é bonito andar por aí sim, por mais que te avisasse que não fica bem ir tão mais além sem saber porquê, nem também por quem. Por mais que tenha dado e não emprestado, por mais que te tenha escrito dado um veredicto. Por mais que tenha guardado, deixado recado. Por mais que tenha gritado e a fera amansado. Por tanto que foi tão de mais, que depois de tanto, porquê e portanto...
Mordeste o isco, ao menor chuvisco, foi só agarrar! E no fim... Valerá a pena a fera amansar?
Porque não é sorte, é bem mais que morte, e é nem gostar. É sair, e pensar não vir, e nunca amarar. É voar e por estar tão alto estar ao pé do chão. É cair, e sempre a subir nunca dizer não.
Sabe a voz que me é atroz, já não estamos sós, somos só normais. Diz adeus ao velho zangado perdem-se as vogais restam os sinais. Pede o prato e o guardanapo, diz adeus ao sol abre este portão. E a estrela que cai tão cadente encontra no futuro um bem tão bem diferente. E a alma que espelha a verdade terna lealdade, farta precariedade. De um mundo redondo, infinitamente estranho. Resoluto e frio decidiu criar, foi só pôr mão, prà gente se dar. Nesta estrada, neste bairro, neste arrabalde distante e profano, neste burgo tão louco e insano. Pensam cansados estes mais que avisados, tristes por pensar, sem dúvida.
Não vale a pena ficar a olhar para o chão, a passagem é programada, terá sempre solução. Está em ti, está em mim, está na Palma da Mão. Está aqui, está ali, é só não dizer não.
Aos meus amigos: Tiago, Rui Luís, Andreia, Mariana, Inês, Rita, Gustavo, Tiago B, António e Rosa A outros que estão cá tanto: JP, JP... À restante família, e a toda a malta que partilha comigo o carro. Ao Astra... ao piano, ao Steinway, à Takamine...
Criança ao peito Na cara um sorriso carnavalesco No passo um ritmo marcado No corpo um sensor sonoro Na voz a delicadeza frágil De um homem corrompido Por uma sociedade que renega Por uma cultura; A mesma que o alimenta, e que o devora
Fica a passagem, o passo flutuante O Peter Pop, o Peter Pan See you in "NeverLand"
Há momentos sem descrição, momentos que com o passar do tempo, lembramos sós, na rotina das nossas vidas, com um sorriso reflectido numa cena qualquer. Tenho muito orgulho por ter pertencido a este momento. Sinto-me privilegiado. Aqui partilho... Obrigado.
Quando as mesas se juntam E os corpos recuam Quando a noite é vendida Aos tumultos na rua
Quando a voz se agarra Às palavras dissolutas Quando não valem nada Os ideais das lutas
O teu regaço não acolhe de novo este homem, feito cria E o teu abraço não conforta este puto, feito nada A pergunta derradeira... E então? Esse amor? Só Fachada?...
Dá o primeiro passo Evita o estilhaço Desmonta o embaraço E quando chegares à estrada sem fim Impõe o teu jogo passo a passo Ergue o braço, apaga o traço Não tornes, segue sem mim Desfila o teu amor placebo Nas asas de condor ao alar Rasga a mascara que é sublime E fura o lençol do luar Descreve um arco e depois afoga-te Na imensidão da calma Submerge o corpo, emerge a alma Faz-te sentir na escuridão que te consome E depois renasce,emana luz Faz-me crer, por fim, que o impossivel seduz E volta a adormecer.
Temos visto as paredes envelhecer, Deitados nesta cama feita de suor e seda O tecto a cair Pendurados neste repasto
A sorte a fugir E a sina dos dias a amanhecer O liquido a fluir E esta vela que faz de mastro
Este fundo preso a lastro As noites vadias em que descortinámos os astros Os sonhos que se difundem nas preces E tudo mais que se possa defumar sobre os teus cabelos
Adeus rotina pois então Olá bom ocio porque não Agruras não mais...
E quando nos doces pés te firmares E as luzes, meios pirilampos agarrares É tempo de acordar
Já as fumaças se agitam E as cores se exaltam Os pescoços gritam E os aflitos saltam
A molhada corre E a vida flui Há gente que morre E desses nunca fui
As praças abertas e as campânulas berrantes Os perfumes saloios as cores deslumbrantes A calçada torta, e tortos os olhares A verdade incerta repousa nos bares
Nas portas, paredes, e janelas de quadrados Nos varões ferrugentos e nos velhos desgastados Nas tradições gritadas a pulmão de puro alento Nos becos caídos rasgados pelo vento
E a brisa inconfundível de um passado perseverante É pois velha em cidade que se engalana de costumes Que levados aos narizes tortos de um povo contente (aparentemente) Pois é claro... Que cheira bem... Cheira a Lisboa.
Estou extremamente inquieto! No peito trago um sobressalto que não sei descrever ,e na cabeça uma confusão louca, uma desorganização confusa que não sei como expor. Um carrossel, aquela sensação de looping loopado que só eu sei apelidar. No corpo uma ânsia desmedida quase frenética, as mãos esfregam a cara e a saliva dos lábios, os braços encostam-se um no outro ,e o pé bate-bate sem parar no soalho que repete sonoramente o batuque activando todos os meus sentidos que já então sobressaltados mais alerta ficam. É sempre esta falta e este vazio... É sempre este vacilar de postura que teima em chegar numa fraqueza flácida que corrompe os meandros da minha voz. Tocam à campainha! Os meus olhos percorrem todo o percurso imaginário que o impulso eléctrico descreve ao longo do fio, que à velocidade da luz se transforma em som. Corro à porta, suado nas mãos e nos cabelos. Afoito espreito, e não me surpreendo, embora me tenha sentido assustado como se o meu próprio medo contivesse a força de um vulcão prestes a explodir num pânico imenso. Aberta a porta, ela entra, toma o seu lugar junto ao piano, e toca, talvez a mais bela melodia que eu alguma vez me lembro de ter ouvido. Estava frio, cada vez mais frio. As folhas da velha trepadeira estavam agora mais escuras, e a textura da parede assemelhava-se cada vez mais à do gelo. Soltei aquilo que pareceu ser um som qualquer na esperança de vislumbrar o bafo, que então se soltava sob a forma de fumo... estava certo, estava frio. Conjuguei na minha cabeça uma questão que se formulou a custo - Quem és tu? - O Piano parou. Os seus olhos cercaram os meus num só impulso, lento, e preciso... Eram da cor do gelo! Eram, da cor, do, gelo! . . .
A Gramática dos dedos escapa-me das mãos Os sonhos esvaem-se em possas liquidas no solo Os passos levam-me a uma praça distante O odor sabe aos sons diurnos e a noite apazigua o cheiro da fruta
É verdade que da janela do comboio espreitam as vinhas do Douro Naquela viagem tão antiga que combina o chapéu de palha com a suja fuligem dos tempos antigos A tradição com a mala dos viajantes, os odores do cabedal com os do ferro forjado
Ao longo do rio estanque na barragem, ao redor da margem com o futuro nos braços Deita-lo à agua é prende-lo, guardá-lo no peito roubá-lo. Mergulho
O eremita cansado pensa sobre os meandros da realidade. Bebe do seu sumo que se atravessa através de dimensões no fumo do seu cigarro. Desvenda as passagens matemáticas de uma religião enigmática em suas mãos. Percorre o seu corpo em busca de mais um sinal. Ele mata com a segurança de uma rocha, ele vive com a fragilidade das asas de uma borboleta nocturna. O eremita cansado fuma à beira rio, vagueia de símbolo em símbolo, detém as chaves das ordens, e as palavras certas. Dotado da escassez dos afectos, encontra nas linhas das palmas das suas mãos, os caminhos perfeitos que julga ele, o guiarão ao nirvana.
Hoje adormeci no metro e quando acordei a carruagem onde eu seguia estava às escuras com as portas todas abertas. Lá fora ouvia sons de rebuliço ao longe. Levantei-me agarrei na minha mala, passei a mão pelo cabelo, e trespassei a porta com os meus olhos semi-cerrados. Uma mulher de tez muito morena, cabelo avelã comprido até ao fundo das costas de reflexos dourados e textura aveludada, vestes laranjas, rosto tapado do nariz para baixo, deu-me a mão. Saímos dali a correr, entrámos no meio de uma multidão colorida. O chão era de azulejo laranja, os cheiros eram os de um mercado. Corremos o mais que pudemos até um deserto que terminava num penhasco...No fim, à beira do abismo, ela desvendou o rosto, sorriu, encostou os lábios na minha face e disse: próxima Estação Entrecampos, há correspondencia com a linha azul...
Vive nas pedras soltas Nas poças de água Nas lágrimas azuis Nas sílabas soletradas Na poeira que vem com o vento Nas paredes caiadas No movimento dos barcos sobre as águas No vai-vem da sorte dos amantes Nos sonhos dos seus ouvintes Nas mãos dos seus interpretes Nos beijos dos seus destinos Nos sorrisos mais alheios Nos gracejos das cigarras Na preguiça das formigas E na graça do mundo Vive no copo, no cálice e na taça No sangue no calor e na melancolia Vive sem que se imponha E não me parece que de alguma forma se oponha Pois é, Pois é... Há quem viva em nós.