Tuesday, February 17, 2009

Partida

Tomei o comboio na estação da Castanheira, depois que o Calhau deixou de me abraçar. Um homem fardado veio à plataforma dar avisos de corneta, uma atenção nova centrou a atenção de todos. E, bruscamente, entre dois grandes penhascos, o comboio rompeu enfim como um rancor subterrâneo, alucinado de ferros e fumarada. E tive medo. Pela primeira vez estremeci de medo até aos limites da vida, não tanto, porém, da fúria do comboio, como dessa coisa insondável e enorme, tão grande para mim, que era partir.
Partir, deixando para trás uma história fraterna e os cozinhados da Tia Augusta. Partir também, por sentir ser esse o meu caminho, muito embora, precipitado pela carta que recebera faz três dias. Embora amedrontado, segurei forte a saca de estopa que carregava os meus escassos pertences, assomei-me à janela para fitar pela última vez o olhar saudoso do meu primo Calhau, que ocupava agora a sua mão esquerda com a tarefa de esconder a lágrima que tanto queria debruçar-se para escorrer pelo seu rosto. Ele estava crescido, pois estava… Não queria chorar para ser como o seu pai, um homem forte e valente. Ele já o era, mesmo pensando que era preciso não chorar para o ser. No meu bolso carregava a carta que tinha recebido de minha mãe, que se encontrava com o meu pai, emigrada, em França, e, na minha cabeça, ainda giravam as palavras soletradas pela Tia Augusta: “Meu querido filho, já temos o suficiente para que venhas ao nosso encontro…” no fundo, eu sabia que não seria bem assim, que as coisas não estavam fáceis e que a doença do meu pai só veio agravar a situação, o que de facto os consumia era que eu fosse chamado para cumprir o serviço… para ir à guerra.
E, para que isso não acontecesse eles fariam qualquer esforço.
À beira de alcançar a maioridade, ia eu sentado, sentindo na pele fria o frio dos bancos de couro da carruagem que rumava a todo o vapor para Vilar Formoso. Se lá na frente distintos senhores liam periódicos, cá para trás restavam uns quantos semblantes tristes, e, mais do que os rostos, eram as malas de cartão, presas com atilhos de cordel cheios de nós em todo o seu comprimento. As palavras da minha mãe pesavam-me no bolso, tanto, que sem dar conta nunca cheguei a largar a lapela do casaco, contudo, confortava-me a paisagem que se arrastava colorida com o sabor da velocidade na janela poeirenta. A cada passagem, um novo quadro, que, por ser primavera era de todas as cores pintado, graças às flores que despontavam em todo o seu fulgor.
Pensava para mim, que se naquele dia fosse uma flor, seria uma flor de pétalas cerradas, amedrontada pelo desconhecido, pelo frio, pela chuva, pelo desconforto exterior. Mas como cabe a uma flor abrir-se, dar seus frutos, e, depois murchar, cabia-me a mim também cumprir o destino que a natureza me conferia. Tinha de enfrentar aquele momento e os que se seguiriam, com coragem para poder vingar, tinha de me abrir para o mundo, tinha de ser forte…
Se, mentalmente me sentia impotente, no peito, transportava uma força quase tão grande como a da locomotiva que avançava galopante sobre os carris de metal. Era um jovem viçoso, traço característico da idade, bem sei, mas nunca deixei de desconfiar que tal viço se devesse em grande parte aos cozinhados da Tia Augusta, que não deixara de me preparar para a jornada uma deliciosa merenda, com luxos, que eles mesmos, só tinham nas mais festivas ocasiões. Desde o presunto, à marmelada caseira e às sandes de torresmos, no embrulho, não faltava nada… Um autêntico cabaz de sabores e de recordações que me apetecia guardar para sempre, não fora a fome por saciar.
Já levava duas horas longas de viagem, e, já me tinham dito que de Castanheira a Vilar Formoso ainda faltaria pelo menos outro tanto. Não me importava com o tempo, para além de ter muito, naquele momento, ele era meu conselheiro e encorajador. A morosa viagem era então forma de me fazer pensar sobre mim próprio, coisa que até à data não era hábito frequente. Apertava-me a barriga o pensamento sobre o desconhecido e sobre a outra realidade que iria encontrar quando chegasse a França, bem diferente daquela que eu conhecia, a da pureza do campo. Ao mesmo tempo, estava feliz por saber que ia rever os meus pais, era aquilo por que eu mais ansiava desde da sua partida, há cinco anos. Mal podia esperar pelo momento em que voltasse a sentir o abraço da minha mãe, e o cheiro dos seus cabelos.
Naquela altura ainda não estava bem ciente de que aquela viagem era apenas uma onda no mar de mudanças que seria a minha vida a partir daí. Como a flor, era chegada a minha altura de florir. Para mim, havia chegado a Primavera.

Camille Pissarro, Lordship Lane Station, Dulwich, 1871.


O 1º Paragrafo não é de minha autoria é sim um mote de uma conhecida escritora que quando souber referirei o nome.

1 comment:

Mariana said...

Já sabes que menos de 18 nisto é uma ida minha à faculdade para insultar a tua Prof.!
O melhor que já escreveste, devias dedicar-te à prosa x)

p.s - mas a parte que eu gostei mesmo foi a "uma conhecida escritora que quando souberes referirás o nome"! ahaha

manoooo :D

How Many