Thursday, February 28, 2008

Mergulho Citadino

Louca a cidade, o chão respira os meus passos, as paredes olham-me nos olhos, o céu turva-se, a noite anuncia-se. Vagam-se as praças, os cafés. Os nichos escuros cantam o tilintar da loiça que se lava na cozinha de um restaurante. Prossigo a minha marcha pela calçada escura. Já é noite. Os candeeiros baços de luz pálida obrigam-me a tropeçar na minha sombra difusa, que insiste em não me deixar só.
Chego a um largo. A calçada mostra-me um brasão que eu desconheço. Dois passos atrás e toco o banco em que se sentam as flores da laranjeira que perfuma o ar, não hesito em fazer-lhes companhia, sento-me, olho em redor, não vejo vivalma. De súbito o cheiro doce que se faz sentir, mistura-se com um outro, não sei ao certo o que é, procuro perceber, a resposta está na luz trémula, oscilante, que se move no escuro que oculta a forma do cachimbo. Distraído em pensamento, uma brisa acorda-me para me dizer que do outro lado do largo que estava vazio está agora um eléctrico. Aproximo-me e parece-me estar vazio. Estendo a mão para a porta. Esta, como que por magia abre-se, hesito, mas mesmo assim aceito o convite, percorro o corredor. Concentro-me no ultimo banco da traseira, sento-me, o toque da pele gasta é frio mas confortável.
De súbito um estalo, toca o sino, é pleno dia, uma velha com quatro sacos numa mão e com outra na minha cara, exclama " Acorda bêbado! ". Estou sentado naquele mesmo banco, o eléctrico avança cheio, não tenho reacção, saio na primeira paragem. Desço ensonado, e a tentar perceber o que se passa, sonolento, vejo-me atropelado pelo carteiro e tropeço no mendigo que se esconde por detrás de alguns cartões. O ambiente é caótico, tudo mexe, tudo gira, tudo grita. Perdido, corro em direcção ao rio! Não paro! O rio aproxima-se, apenas existe água no meu horizonte, ele corre para mim, e eu para ele. Ele não cede! É minha a escolha, mergulho, o mais fundo que consigo, insisto, quero alcançar o fundo, esbracejo, hei-de tocá-lo, já me aflige o pulmão, e quando invento o fundo nas minhas mãos perco o controlo de mim mesmo, tudo fica negro. É o fim...
Nesse mesmo dia, fim de tarde, sentado na esplanada do café do Elias, agarro um jornal, divido-o com o sabor do café e com a dança das ancas das mulheres que passam.
Em manchete grita-me o jornal," Homem sem vida apanhado numa rede de pesca "...


Algures em 2007



Música:
Jorge Palma e Flak.
Letra: João Gentil
Versão Original: Xutos&Pontapés

1 comment:

Mariana said...

as nossas tardes de passeata! :)
ler esse texto e ouvir a musica em simultaneo é a melhor coisa! <3

How Many